Se Essa Calçada Fosse Minha…

28 de agosto de 2017
Ricardo Pimentel é Doutor em Administração pela Universidade Positivo (UP) com estágio doutoral (período sanduíche) na Aarhus University em Copenhagen na Dinamarca, Mestre em Administração Estratégica pela PUC/PR, Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). É atualmente professor e pesquisador do Programa de Mestrado Profissional em Governança e Sustentabilidade do ISAE em Curitiba – PR.

Sempre que penso em sustentabilidade penso também em coletividade. Não significa que considero que só são sustentáveis as iniciativas ou soluções que sejam coletivas, mas sim que a dimensão coletiva deva ser o norteador da sustentabilidade.

Convido você a refletir comigo sobre um exemplo concreto. O Brasil é um país que há décadas optou pelo asfalto, pelos veículos automotores, e consequentemente pela gasolina (e pelo álcool) como forma de resolver seu problema (coletivo) de transporte. Mais recentemente essa situação se agravou, quando optamos pelo automóvel como solução individual. Milhões de carros em engarrafamentos infindáveis e transportando um único passageiro.

Eis que surge como opção a essa hegemonia o uso da bicicleta. Nesse contexto parece evidente que utilizar bicicleta é fazer algo “alternativo” e “sustentável”: não necessariamente. O uso da bicicleta não é uma opção para salvar o planeta; não faz do ciclista um ser que já garantiu seu lugar no céu; não é um modo de estar em equilíbrio com a natureza e com o mundo ao seu redor; não é a linha que separa o “atraso” do progresso.

Mesmo que para alguns de nós essas experiências individuais sejam válidas e interessantes (exceto o lugar no céu, porque ninguém voltou para contar se existe mesmo), a bicicleta não pode ser a causa da transformação social que se espera em relação à mobilidade urbana. Ao contrário, ela é o seu resultado. Por mais óbvio que possa parecer o que vou dizer, a mudança passa pelo foco nas pessoas e pela questão da igualdade. Como aliás, “99,7565487349%” dos problemas brasileiros. Quando pensamos em mobilidade urbana sustentável temos que ter dois focos muito claros: as pessoas e a igualdade. Em termos de mobilidade urbana, o que todos nós temos em comum?  Somos todos pedestres. Essa é nossa condição básica.

Se queremos uma solução que tenha alcance, profundidade, e que vá no cerne da questão, temos que pensar primeiro nos pedestres. E se por acaso ao ler isso você pensou “eles, os pedestres”, ou “eu não sou pedestre”, é só uma comprovação de que meu raciocínio está correto. Precisamos urgentemente voltar a ser pedestres, ou ao menos nos lembrarmos que somos pedestres, mesmo quando estamos dentro do nosso carro com o ar condicionado ligado.

A foto abaixo foi tirada em uma rua de São Paulo em 2014, durante um protesto de moradores contra a ciclovia implantada pela prefeitura. De imediato somos induzidos pela foto (e à época, pelo calor da polêmica) a ficar a favor ou contra a ciclovia. A favor ou contra os moradores que não querem a ciclovia.

Mas um olhar mais atento pode nos mostrar que o problema é outro: reparem na calçada. Ela não foi feita para os pedestres, mas para os carros.

Reparem na ciclovia. Ela não foi feita para as bicicletas: duas mãos na mesma pista não funciona para bicicletas, se efetivamente queremos que um grande número de pessoas passem a utilizá-las. Além disso, ela ocupou o único espaço que os pedestres, impedidos de andar na calçada, tinham para caminhar “com segurança”. Um idoso, uma criança, um carrinho de bebê, só podem andar na rua, ou melhor, só podiam, porque agora o espaço foi tomada pela ciclovia. E agora, por onde andam os pedestres nessa rua?

Numa conversa sobre esse assunto com uma amiga numa rede social, ela me perguntou: “por onde começar?”. Ela é uma querida, mas tenho que dizer que essa pergunta é bem malandra. Aposta no fato de o “monstro” ser tão grande que jamais poderá ser derrotado. Sendo assim, aprendamos a conviver com o “monstro”, e a solução é cada um ter seu carro e nos tornarmos uma sociedade de iguais…igualmente parados no congestionamento.

Minha resposta foi que devemos começar fazendo aquilo que seria uma revolução na maioria das cidades do Brasil (incluindo nossa querida Curitiba), e que não são as ciclovias. Tenhamos calçadas onde todos possam caminhar com segurança. Serão tantas pessoas que passarão a ter a mobilidade da qual hoje são privadas, que nossas ruas mudarão radicalmente. Mães e pais poderão usar carrinhos de bebê; cadeirantes poderão se locomover; os idosos poderão sair de casa e ir ao supermercado, à padaria, e aonde quiserem. Isso vai nos permitir enxergar coisas que não enxergamos hoje em dia.

Por exemplo, que antes de mais nada precisamos melhorar a qualidade dos ônibus: não adianta ter calçadas decentes se crianças, idosos e cadeirantes não podem subir no ônibus com autonomia. Ônibus baixos e com real acesso a cadeirantes, idosos e carrinhos de bebê são sustentáveis.

Isso é mais complicado ainda que melhorar as calçadas, porque envolve os interesses do poder econômico das empresas de transporte. Mas essa é uma briga que muita gente dos movimentos sociais vem travando há muito tempo. Enquanto isso muitos de nós ficamos compartilhando nas redes sociais imagens defendendo o uso de bicicletas, usando nossos celulares ao volante dos nossos carros, que claro estão parados no congestionamento que só aumentou do parágrafo anterior até aqui.

E aqui está um terceiro ponto importante: o transporte público não vai melhorar enquanto nós não usarmos o transporte público.

Uma cidade referência em soluções de mobilidade chama-se Copenhagen, a capital da Dinamarca, onde tive a oportunidade de morar por seis meses. Ela é sim uma cidade pensada de uma maneira diferente. Mas não se enganem. Eles não são abençoados por Deus ou têm alguma capacidade superior ao restante dos mortais. Eles fizeram uma opção como sociedade, ou seja, uma opção política.

Andar de bicicleta todo dia não é uma forma de hedonismo, mas um esforço individual e coletivo. Parece linda e bucólica a ideia de ir de bicicleta ao trabalho. Mas significa ir também na chuva e no frio, porque em Copenhagen, por exemplo, se num dia de frio e chuva os 36% da população que vai ao trabalho e à escola de bicicleta resolverem usar os outros meios, o sistema entra em colapso. Nesse sentido, a bicicleta não é uma opção, e nem é uma alternativa, ela é parte do sistema.

Isso vem combinado com outros elementos. Para eles é inquestionável pagar entre 60 e 70% do valor do carro novo só para registrá-lo, mais impostos e taxas anuais, etc, etc.

Também requer aceitar que no ônibus, no trem e no metrô sejam reservados espaços para a as cadeiras de roda, os carrinhos de bebê e, claro, as bicicletas. Com isso tem-se menos espaço para os passageiros, e uma tarifa que leva isso em consideração, ou seja, mais cara. Ao câmbio atual o valor mínimo que se paga em uma passagem no transporte público é R$ 12,00.

Se você perguntar para qualquer morador de Copenhagen porque ele ou ela usa bicicleta você receberá as duas respostas fundamentais: porque é mais barato e mais rápido.

Claro que minha intenção não é apresentar a solução mágica, mas fomentar o debate. Tudo isso dá um trabalhão, leva muitos anos, talvez décadas, muitos conflitos, muito desgaste, para efetivamente dar alguns resultados práticos. Mas o modelo do jeito que está no Brasil também gera tudo isso, e seus resultados têm sido criar cada vez mais problemas.

 

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