Redução de odores: testes com novo produto para encapsular gás sulfídrico mostram eficiência

30 de outubro de 2017
Dr. Eng. Charles Carneiro, Gerente da Unidade de Gestão de Resíduos Sólidos - UGRS / DMA Companhia de Saneamento do Paraná - SANEPAR

Imagine prender em cápsulas os odores produzidos em atividades como o tratamento de esgoto, de modo a evitar que a vizinha de uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) possa se incomodar com mau cheiro e que isso ocorra de um modo simples, seguro e eficiente.

Uma equipe da Sanepar está realizando testes com o “sequestrante químico específico para H2S”, um novo produto químico capaz de fazer isso de forma seletiva e com isso reduzir significativamente a emissão de odores.

O gás sulfídrico (H2S) é o principal causador de cheiro desagradável nas ETES e um dos principais problemas que a Sanepar enfrenta tendo adotado a rota anaeróbia para tratamento da ampla maioria de seus esgotos.

As equipes da Sanepar já desenvolvem várias ações para reduzir a dispersão desse gás para a atmosfera, sem causar alterações qualitativas no efluente das ETEs e sem oferecer riscos de segurança ao pessoal de operação, como por exemplo, coleta e queima do biogás, eliminação de cascateamentos, implantação de barreira vegetal (cortina verde) e aplicação de produtos químicos.

“Estas técnicas controlam e até eliminam grande parte das emanações de odores, porém, em algumas situações mais críticas, há concentração residual ainda presente que continua a causar desconforto na população vizinha. Assim, é imperativo o desenvolvimento de soluções cada vez mais eficientes, até que consigamos de fato obter uma ETE sem odor”, explica o engenheiro César Marin, da Unidade de Serviço de Esgoto (USEG).

O novo produto químico consegue encapsular o gás sulfídrico e evitar que ele seja emitido para a atmosfera, deixando-o preso no meio líquido. A investigação foi realizada durante cinco meses na ETE Rodovia do Xisto (Lapa)e na ETE Cambuí (Campo Largo).

O sequestrante demonstrou grandes vantagens em relação aos produtos atualmente disponíveis. “Por ser seletivo, ele não reage com outras substâncias além do gás sulfídrico. Também não produz alterações na qualidade do efluente e é um produto relativamente seguro, sem riscos aos operadores e de fácil aplicação. Além disso, não requer equipamentos e materiais específicos para acondicionamento e dosagem e, o mais importante, é altamente eficiente”, diz o Eng. César Marin.

Ele explica que foram utilizadas dosagens entre 3,5 e 4 Kg de produto para cada quilograma de sulfetos (medidos na saída dos reatores) resultando em 100% de eficiência no encapsulamento do gás sulfídrico. “Isto significa resultados superiores comparativamente aos obtidos com os produtos atualmente disponíveis, e uma economia de até 35% nos custos, se comparado aos sistemas com cloro líquido”, conta Marin. Segundo ele, na maioria dos sistemas de pós-tratamento utilizados na Sanepar, o produto vai acabar sendo oxidado ou fazendo parte do lodo gerado nesta etapa.

“A pesquisa não investigou o que acontece quando o pós-tratamento é anaeróbio, como filtros ou lagoas. Caso não exista pós-tratamento, irão gás segue encapsulado para o rio, e acabará sendo oxidado por bactérias”, afirma.

Os técnicos da USEG acreditam que a alternativa é promissora. “Como é um produto seguro, podemos utilizar inclusive em sistemas em que a operação é volante, o que não dá para fazer com peróxido e cloro”, afirma o técnico Inácio de Andrade da USEG. Além de Marin e de Andrade, colaboraram com a pesquisa os técnicos Fabio Adelino Silva, Marino Kumegawa e Jose Carlos Stoco, além dos operadores das duas ETEs.

 

Em novembro de 2016, a USEG criou o GT Odor, um grupo técnico para atender a demanda estratégica da Sanepar de neutralizar os maus odores no processo de tratamento de esgoto. A partir de diagnósticos situacionais das ETEs mais críticas, foram realizadas várias mudanças estruturais e hidráulicas, assim como melhoria gestão de resíduos, correções nas linhas de biogás, ajustes na aplicação de produtos químicos, entre outros. Apenas no âmbito da USEG foram elencadas mais de 130 ações, das quais cerca de 30 já foram executadas.

Na USEG, a meta é que as 26 ETEs sob sua responsabilidade em Curitiba e Região Metropolitana, que, juntas, tratam cerca de 5.000 litros por segundo, tenham os diagnósticos detalhados, planos de ação implantados e boa parte das ações realizadas ainda em 2017. “A forma com que conduzimos o assunto odor precisa alcançar outro patamar e estar aliada às políticas da Sanepar. A convivência com os nossos vizinhos tem igual ou maior importância que a qualidade de nossos processos internos. Já passou o tempo em que a preocupação era apenas intramuros. Buscaremos a todo custo a mesma eficiência que temos nas fases líquida e sólida, para com a fase gasosa”, afirma o gerente da USEG, Eng. Charles Carneiro.

 

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