Você Quer Emprego Ou Um Bom Emprego? Reflexões Sobre a Diferença Entre Crescimento e Desenvolvimento Econômico

13 de novembro de 2017
Josué Alexandre Sander e Rodrigo Moreira Casagrande, professores do Mestrado em Governança e Sustentabilidade do ISAE.

O atual modelo econômico foi alicerçado na visão da inesgotabilidade dos recursos naturais e busca do lucro a qualquer preço. Felizmente, parece crescer um entendimento coletivo de que as organizações precisam passar por uma mudança fundamental, que leve em consideração a geração de valor para todas as partes interessadas. Nesse contexto o ¨como¨ é tão ou mais importante que ¨o que¨ e esse entendimento passa pela diferenciação entre crescimento e desenvolvimento sustentável.

O desenvolvimento econômico é algo mais amplo e consistente do que puramente o crescimento econômico. O processo de crescimento ocorre de forma isolada e pode acarretar desequilíbrios estruturais em uma economia, trazendo sérias dificuldades a seus governantes e várias partes interessadas. O processo de desenvolvimento, por sua vez, refere-se a um estágio econômico, social e político de uma sociedade, caracterizado pela constante melhoria nos índices de produtividade dos fatores de produção (aproveitamento da busca pela eficácia dos recursos naturais, capital e trabalho).

Além de um aumento da quantidade de bens e serviços per capita, o desenvolvimento econômico envolve mudanças de caráter qualitativo. O desenvolvimento sustentável deve atender conjuntamente as dimensões econômica, social e ambiental, o que ficou conhecido como triple bottom line. Nesse sentido, deve considerar, de maneira harmônica, o crescimento econômico, os resultados sociais decorrentes e a preservação do meio ambiente na utilização dos recursos naturais (ELKINGTON, 2012).

Nessa linha, analisar o bem-estar das nações apenas pelo PIB pode acarretar distorções quanto à mensuração de bem-estar da população. Vejamos essa comparação:

País   PIB (US$)  PIB PER CAPITA
(US$)
Brasil 2.245.673.03.354 11.208
Canadá 1.826.768.562.832 51.964
Noruega 512.580.425.532 100.898
Fonte: (NOGAMI; PASSOS, 2016)

Se analisássemos puramente o PIB, poderíamos dizer que o Brasil é um país com melhor qualidade de vida do que a Noruega ou Canadá? Logicamente que não, basta calcular o PIB per capita, medida de mensuração de qualidade de vida mais utilizada até a década de 1990, para chegarmos a ideias mais clarificadas quanto ao bem-estar da população. Poderíamos, então, partir para uma análise de IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, enfim…existem várias outras maneiras de mensuração do bem-estar.

É preciso colocar uma lente mais crítica nas formas de análise. Por exemplo, verificar não apenas se há emprego, mas também refletir sobre o que é um ¨bom emprego¨. Para muitos, um ¨bom emprego¨ se trata de uma ocupação com boa remuneração salarial. Neste caso, de fato, as dificuldades econômicas (como as que o Brasil tem enfrentado) reduzem o “bom emprego”. No entanto, existem outras formas de analisar o que é um “bom emprego”, que inclui uma remuneração justa, boa atmosfera de trabalho e espaço no qual a pessoa possa realizar as suas potencialidades, aprender, utilizar as suas competências e produzir benefícios para a sociedade, atuando em uma organização ou sendo empreendedor.

Como a organização pode oferecer “bons empregos”? Um bom caminho é adotar os dez princípios do Pacto Global (http://www.pactoglobal.org.br/), que é uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de encorajar as empresas a adotarem políticas de responsabilidade social corporativa e de sustentabilidade. Outro vetor que remete às relações do trabalho nessa direção profícua é o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 8: Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos. Lembrando que a ONU desenvolveu 17 objetivos globais (https://nacoesunidas.org/pos2015/) para serem cumpridos pelas nações até 2030.
Os ¨bons empregos¨ geram retornos positivos para a sociedade (melhores produtos ou serviços) e um crescimento sustentável para o país. A organização que gera “bons empregos” também se beneficia, pois a atuação dos seus colaboradores poderá resultar no crescimento da organização e no alcance da sua sustentabilidade econômica.

Além disso, os “bons empregos” não reduzem ou cessam durante dificuldades econômicas. Períodos recessivos são uma oportunidade para a organização refletir sobre as suas práticas e iniciar o processo de transformação. A atuação dos profissionais que atuam com liberdade e podem utilizar suas competências, habilidades e atitudes éticas são fundamentais para superar a dificuldade enfrentada.
Assim, em tempos de instabilidade econômica é ainda mais urgente que sejam gerados “bons empregos”, pois são estes que garantirão o crescimento econômico e o desenvolvimento sustentável. Não existe a relação, imaginada por muitos, de que os ¨bons empregos¨ são decorrentes do crescimento econômico. Mas sim, o crescimento econômico é decorrente da existência de ¨bons empregos¨, os quais auxiliam na construção de uma sociedade mais justa e humana.

Partindo-se desse pressuposto de que o crescimento econômico da sociedade é consequência da existência de “bons empregos” e não a sua causa, nossas reflexões convergem para o entendimento do desenvolvimento humano em organizações como um processo de ampliação das escolhas das pessoas, para que tenham capacidades e oportunidades para serem o que desejam ser, levando em consideração suas oportunidades e capacidades. Por essa perspectiva, a renda é vista como um meio de desenvolvimento e não como seu fim.

REFERÊNCIAS
ELKINGTON, J. Sustentabilidade: canibais com garfo e faca. São Paulo: M. Books do Brasil, 2012.
NOGAMI, O.; PASSOS, C. R. M. Princípios de Economia. São Paulo: Cengage Learning, 2016

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