Opinião:Pai trabalha, filho come, neto passa fome – Importância do plano de sucessão para o universo das empresas familiares

2 de outubro de 2017
Rafael P. Santiago é mestrando no Programa de Mestrado em Governança e Sustentabilidade do ISAE Escola de Negócios e sócio da RCA Consultoria.

Aproximadamente 90% das empresas brasileiras são familiares, as quais são responsáveis por 65% do PIB brasileiro, é o que dizem as estatísticas divulgadas pelo IBGE e Sebrae. Complementando os números do universo das famílias empresárias, pesquisas apontam que de cada 100 destas empresas abertas, apenas 30 passam com sucesso pela primeira passagem de bastão, da 1ª para a 2ª geração, e apenas 5 chegam à 3ª geração.

De acordo com os números apresentados, o antigo ditado popular “Pai trabalha, filho come, neto passa fome” resume a realidade e a importância das empresas familiares na nossa economia, bem como suas particularidades e complexidade, onde cuidar do seu planejamento e garantir a sobrevivência é o principal desafio do mundo corporativo. Uma das principais ferramentas de gestão para que se vença esse desafio é a governança corporativa familiar, que, de maneira prática, pode ser estruturada por meio de um plano de sucessão.

Dentre os diversos agentes existentes no ambiente das empresas familiares, para se trabalhar de maneira eficaz o plano de sucessão, garantir a harmonia da família, proteger o patrimônio e perenizar a empresa, é essencial conhecer os papéis e as responsabilidades de cada envolvido, bem como seus interesses como agente de governança.

Falando da vida como ela é, podemos citar a Cedro Cachoeira, uma empresa familiar centenária do ramo têxtil que é comandada pela 5ª geração de sócios e ilustra a importância do planejamento, onde há um modelo maduro de gestão, gerado por investimentos contínuos em seu sistema de governança. Na contramão deste exemplo, podemos citar uma excelente e conhecida empresa, a Dudalina, que, fundada na década de 50, viveu e vive conflitos de diversas naturezas, com direito a briga entre irmãos, venda da empresa a fundos de investimento e até abertura de uma empresa concorrente ao negócio da família por parte de outro irmão.

De acordo com uma pesquisa Global sobre empresas Familiares promovida pela PWC 2016, apenas 45% destas organizações possuem um planejamento de sucessão para, no mínimo alguns executivos sêniores. A ilustração abaixo demonstra o resultado obtido para a seguinte pergunta: a sua empresa tem um plano de sucessão para os principais executivos (cargos sêniores)?

Fonte: Pesquisa Global sobre Empresas Familiares 2016 – PWC

Falando agora sobre os passos para garantir um bom plano de sucessão das empresas familiares, apresento abaixo os principais tópicos sugeridos pelo Dr. Dominik von Au, um experiente consultor da PWC na Alemanha, adaptados e acrescidos pela minha percepção prática de mercado.

  • Aquisição de experiência fora da empresa familiar: é muito importante aprender e ter experiências diversificadas em alinhamento às necessidades do negócio da família. É um caminho longo e mais uma vez esta é uma etapa do planejamento que deve começar cedo.
  • Elaboração de um planejamento estratégico de longo prazo: o planejamento estratégico é uma ferramenta de gestão que baseada no planejamento, como o próprio nome diz, permite conectar as gerações em um horizonte de futuro referenciado em critérios científicos para a tomada de decisão, fatos e dados.
  • Implementação e fortalecimento do Conselho de Administração: o conselho pode ser formal ou informal em um primeiro momento, porém, seus benefícios são inquestionáveis, desde que bem implementados. O Conselho é uma excelente ferramenta de planejamento e um passo de fortalecimento do sistema de governança, onde a saída do (s) fundador (es) da operação pode e deve ser suprida por esta nova função, mantendo a supervisão da direção executiva e o conhecimento estratégico de quem sai do dia-dia do negócio, entregando-o à nova geração ou à gestão profissionalizada.
  • Planejamento da transferência de participação: transferir participação ainda em vida é uma forma de sucesso para garantir a harmonia familiar, proteger o patrimônio e perenizar o negócio, onde a decisão está nas mãos da geração que tem autoridade para tal. Quanto antes este processo se iniciar, maiores os benefícios futuros, pois expectativas são alinhadas, regras e políticas são criadas e ruídos são mitigados.
  • Investimento em conhecimento: promover o desenvolvimento dos herdeiros é essencial para que quem no futuro for assumir o controle dos negócios, esteja preparado.

Em resumo, as empresas familiares fazem parte da nossa realidade corporativa, sua relevância e complexidade nos permitem fugir das “receitas de bolo” para mitigar suas dificuldades. Conhecer sua realidade, suas particularidades e quebrar paradigmas rumo ao amadurecimento da cultura de planejamento são os fatores críticos para a sucessão executiva e hereditária. O plano de sucessão vai além de preparar executivos, ele corresponde ao planejamento completo do sistema de governança e deve abordar temas ligados a Família, a Propriedade e ao Negócio, pois somente assim as empresas familiares estarão preparadas para enfrentar a criticidade do choque entre gerações do ambiente de negócios, mantendo a harmonia familiar, protegendo o patrimônio da família e perenizando o negócio.

 

 

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