Opinião: Startups e Governança Corporativa

23 de outubro de 2017
Anderson Roberto Godzikowski, é aluno do Mestrado em Governança e Sustentabilidade do ISAE Escola de Negócios, especialista em projetos e governança corporativa, advisor, empreendedor, investidor e educador.

Nos últimos anos, um incrível número de startups vem sendo criadas desafiando as grandes empresas em seus modelos de negócio, operação, gestão e – porque não? – governança. No Brasil, Nubank e BankFacil entram no tabuleiro do sistema financeiro brasileiro e fazem o Bradesco responder com o Next.
A Contabilizei reinventa a contabilidade dos milhares de escritórios, enquanto a Conta Azul e a Omnie avançam nas médias e pequenas empresas diante de SAP, Oracle e Totvs. A CVC vê surgir a Viajanet e a Decolar; a LeroyMerlim, o Maderamadera.

No mundo, são inúmeros e já clássicos os embates disruptivos: Netflix vs Blockbuster; Câmeras digitais vs Kodak, Facebook vs MySpace e Orkut; Apple e Samsung vs Blackberry e Nokia; Uber vs Taxi; Airbnb vs Hotéis, entre outros. Somente em 2015, a Associação Brasileira de Startups (ABStartups) estima que tenham surgido 1.000 novas empresas com alto potencial de crescimento no Brasil. Trata-se de número 30% maior que em 2014.

O expert em startups Eric Ries (Lean Startup, 2011) afirma que a maioria das ferramentas de administração não são projetadas para florescer no solo adverso de extrema incerteza. Mas complementa dizendo que, embora esta inovação seja cada vez mais descentralizada e imprevisível, não significa que não possa ser administrada.

Um dos instrumentos de gestão desafiado por essa nova economia é a Governança Corporativa. Há, pelo menos, dois sentidos de análise para avaliarmos a relação entre as startups e a governança Corporativa.

Primeiro, as startups partindo de sua criação até a maturidade. Nessas empresas “From Zero to Hero”, a governança precisa ser extremamente flexível e adaptável para cada estágio do seu rápido crescimento. Entretanto, flexibilidade não significa superficialidade das práticas ou fragilização dos controles. Exemplo, reuniões com investidores são semanais e, ao invés de relatórios e números, os fundadores recebem perguntas do tipo “Como podemos ajudá-los?”. Essa é uma relação muito mais próxima entre sócios e investidores do que temos nos sistemas de governança das empresas tradicionais. E há outros desafios para as empresas ¨From Zero to Hero¨:

  • a maioria dos fundos e investidores condicionam seus aportes ao poder de impedimento do fundador;
  • regras de founder vesting e anti-diluição precisam ser definidas para resguardar o investidor entre as rodadas de investimento: Anjo, Semente, Séries A, B e C;
  • há, também, desafios específicos no ecossistema brasileiro, onde o mercado ainda não converte expectativa futura de faturamento em múltiplos do EBITDA nos valuations.

Além de que os retornos aos acionistas são, na maioria das vezes, ainda muito menos acelerados do que se espera.

Em um segundo sentido de análise, “From Hero to New Hero”, empresas tradicionais e consolidadas estão cada vez mais estabelecendo variadas relações com startups: parcerias, incubadoras internas/externas, equity, aquisições de startups, hackatons, startups internas, entre outras. Portfólios e investimentos são definidos através de novos e criativos critérios de seleção dos projetos, como o “medo de ficar de fora”, por exemplo. Este cenário pode desafiar o status quo da governança corporativa nas empresas tradicionais. Logo, faz-se necessário manter práticas que tratem esses velozes e furiosos tentáculos que, desgovernados, podem oferecer riscos em uma velocidade absolutamente diferente do que os sistemas de governança tradicionais estão preparados para enfrentar.

Nesse contexto, tanto as grandes empresas quanto as startups possuem um mesmo desafio: encontrar modelos flexíveis que mantenham o alinhamento das práticas a cada estágio do crescimento e/ou que promovam relações adequadas com esses novos negócios. Sem isto, com a mesma rapidez que esta nova economia nos surpreende, podemos ver surgir novas “Enron ou Lemoon Brothers digitais” ou, no limite, sufocar os motores da inovação com fardos de regulações e compliance pesados demais. Em julho de 2017, a CVM – Comissão de Valores Mobiliários editou a Instrução CVM 588, que regulamenta o crowdfunding de investimento para captações públicas de até R$ 5 milhões. Um movimento importante, mas tal qual o produto de uma startup, em que ciclos rápidos testam hipóteses visando uma rápida aprendizagem (modelo construir, medir e aprender), as práticas de governança corporativa das startups requerem uma constante adaptação alinhada ao crescimento exponencial desses negócios.

Uma governança corporativa contextualizada para essa nova dinâmica deve contribuir com o crescimento do ecossistema de startups no Brasil, de forma a considerar a longevidade, a equidade, o compliance e a responsabilidade corporativa como parte integrante e indispensável desse sistema integrado de dimensões econômica, social e ambiental.

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